“Nunca pensei que teria de matar um cão”: a vida de policiais ambientais em Brasília

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    O soldado Adriano Figueiredo tinha acabado de ser admitido no Batalhão Ambiental da Polícia Militar de Brasília quando foi atender uma emergência na favela Sol Nascente, a maior do Distrito Federal. Um pitbull grande e forte que espumava pela boca tinha acabado de morder o dono e outros cães menores. A família se trancara em casa, mas o cachorro quebrou o vidro da porta e ameaçava entrar.

    “Quando chegamos, vimos na casa instrumentos de treinar cachorros para serem violentos”, diz o soldado à BBC Brasil. “Como o animal não tinha sido vacinado, pegou raiva e estava atacando todo mundo.”

    Figueiredo e os colegas avaliaram que o pitbull tinha de ser abatido. Deram três tiros no cão, um deles na mandíbula, mas o animal seguia vivo – e combativo.

    Os policiais então se atiraram no corpo do cachorro. “Por extrema necessidade, tivemos de sacrificá-lo enforcado”, lembra Figueiredo. O policial narra o episódio devagar, com dificuldade. Dono de um cachorro “criado como membro da família”, ele achava que o pitbull era o único ali que não tinha qualquer culpa.

    Afinal, se os donos não tivessem deixado de vaciná-lo nem o treinado para ser violento, a situação poderia ter sido evitada, diz o soldado. “Nunca pensei que teria de matar um cachorro”, afirma.

    O caso ilustra um dilema vivido por policiais ambientais, profissionais treinados para proteger animais e impedir que sejam maltratados por humanos – desde que não ponham humanos em risco.

    Mestres e doutores

    A intensa relação entre humanos e outros animais em Brasília tem mantido os policiais do batalhão ambiental ocupados.

    Bíblia aberta à mesa, o chefe da unidade, major José Gabriel de Souza Júnior, diz que os 78 soldados sob seu comando atendem entre 10 e 12 ocorrências por dia.

    A BBC Brasil visitou na última terça-feira a sede do batalhão – uma casa arejada cercada por abacateiros e jabuticabeiras no Parque Ecológico de Águas Claras, a 20 km da Esplanada dos Ministérios. Fardados e armados, policiais conversavam e riam nos corredores, entre prateleiras com livros de botânica, comportamento animal e hidrologia. Disciplina militar, só na continência prestada aos superiores.

    “Nossos policiais são altamente especializados”, diz o major. “A maioria aqui tem curso superior e pós-graduação: são biólogos, geógrafos, veterinários, agrônomos, engenheiros florestais. Alguns têm até mestrado e doutorado.”

    O salário inicial de R$ 6,3 mil, oferecido pela PM-DF a soldados de primeira classe, ajuda a atrair profissionais para a carreira.

    Souza Júnior – ele próprio formado em Direito e com MBA em gestão de projetos – diz que a especialização dos policiais é essencial para as tarefas que executam na unidade. Além da formação acadêmica e do treinamento básico de PM, todos no batalhão recebem aulas sobre como lidar com animais.

    “Tem animais que, se você capturar errado, ele morre. O veado-catimbeiro e o veado-mateiro, por exemplo, têm um ataque cardíaco e vêm a óbito quando ficam estressados. Então, tem que ter o cuidado de esperar o melhor momento para o resgate, não ficar insistindo, reduzir a tensão.”

    Ele lembra que, anos atrás, o resgate de um jacaré numa casa no Lago Sul levou um dia e uma noite. Em outra ocasião, policiais levaram três dias para capturar uma cobra-do-milho (corn snake) no 15º andar de um prédio em Águas Claras. Espécie nativa dos EUA, a serpente havia entrado na laje do edifício (suspeita-se que fosse criada por algum morador).

    Número dois do batalhão, o capitão Cristiano Rocha rompeu o ligamento do joelho enquanto tentava agarrar uma ema no curso de formação. Outro colega, ferido na panturrilha por um tamanduá, teve de abandonar o curso.

    Rocha participou de um dos resgates mais emblemáticos da história da unidade, quando um lobo-guará deu as caras numa quadra residencial da Asa Sul, no centro de Brasília.

    O animal se escondera embaixo de um carro. Os policiais tentaram atraí-lo para a gaiola, mas o lobo não se mexia. Temendo que o animal fugisse ou atacasse os moradores, Rocha conta que um policial teve de tirá-lo de lá “no braço, meio na brutalidade”. “Às vezes você tem de resolver do jeito que dá”, diz.

    O animal saiu ileso e, após alguns exames, foi solto no Parque Nacional de Brasília.

    Formado em Biologia e mestre em Genética pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), Rocha trancou o doutorado em biologia molecular ao ingressar na PM, já pensando em postular uma vaga no batalhão ambiental.

    Habituado a pesquisar onças no Pantanal, o policial já participou de duas operações para resgatar felinos em Brasília. Em ambas, as onças sumiram antes que a equipe aparecesse. Rocha diz que, nos últimos anos, houve perto de Brasília vários registros de onças-pretas – uma variação genética rara entre onças-pintadas, o terceiro maior felino do mundo.

    “Como são animais de hábitos noturnos, talvez as pretas estejam conseguindo se esconder melhor em ambientes urbanos, numa espécie de seleção natural induzida pelo convívio com o homem.”

    Em 2012, câmeras de segurança filmaram uma onça-parda (suçuarana) no estacionamento do Superior Tribunal de Justiça. Rocha diz que Brasília é cruzada por vários corredores naturais que ligam reservas ecológicas.

    Segundo o Serviço Florestal Brasileiro, 25% do Distrito Federal é coberto por vegetação nativa. Mesmo em zonas urbanas, como no Plano Piloto, há amplas áreas verdes onde humanos e animais silvestres convivem.

    Professor de Zoologia da Universidade de Brasília (UnB), Ricardo Bomfim Machado diz que a cidade preserva parte da fauna nativa – ainda que a urbanização crescente venha reduzindo o número de espécies.

    A capital foi erguida na década de 1950 numa área de cerrado cortada por vários cursos d’água, ambiente bastante favorável à vida animal. Machado diz que, dos 350 tipos de aves nativas da região, um terço conseguiu sobreviver na zona urbana de Brasília. O grupo inclui espécies como gavião-casaca-de-couro, arara-canindé, tucano e papagaio-galego.

    As populações de mamíferos sofreram mais, mas ainda é possível ver saguis, capivaras e vários tipos de morcego nas áreas residenciais. Outra espécie que se adaptou bem à cidade é o saruê, marsupial que chega a 90 centímetros de comprimento.

    O capitão Cristiano Rocha diz que o saruê é o que “dá mais trabalho” nos resgates. “Ele se esconde em canos, forros, e pode morder quando acuado.”

    Em 2012, um espécime foi capturado dentro do Senado, numa sala vizinha aos gabinetes do senador Fernando Collor e do então presidente da Casa, José Sarney.

    Outras ocorrências comuns envolvem aves feridas ou que escaparam do cativeiro. Certa vez, o batalhão resgatou um pombo-correio perdido na cidade-satélite de Recanto das Emas. Os policiais contataram uma associação de criadores de pombos-correios e conseguiram localizar o dono, que se emocionou ao reencontrar a ave.

    Segundo o comandante, um beija-flor com a asa ferida é suficiente para mobilizar uma equipe do batalhão. Quando há mais de uma ocorrência ao mesmo tempo, a prioridade é de filhotes ou animais em extinção. “São critérios parecidos com os usados para seres humanos”, diz Souza Júnior.

    Nem sempre os resgates terminam bem. Muitos animais são capturados após atropelamentos – caso de uma anta de 15 kg atingida por um veículo no Setor Militar Urbano. Com a ajuda do Exército, o animal foi levado até os veterinários do zoológico, mas morreu pouco depois.

    “Ela chegou lá fungando, fungando. Foi um caso que me chocou, porque nem sempre a gente vê um animal tão grande assim, e ferido. Uma tristeza”, diz o capitão Rocha.

    A ocorrência mais dramática que o policial enfrentou ocorreu neste ano, após uma denúncia de maus-tratos contra uma pitbull. “Era um caso em que o dono mantinha relações sexuais com a cachorra”, conta.

    O policial diz que a cadela tinha uma infecção no sistema reprodutor, e que o dono arrancou todos os seus dentes para que não mordesse. “O jeito de lidar com animais maltratados é como numa ocorrência com estupro de criança: você fica indignado, mas tem de respirar fundo para não sair da legalidade”, diz Rocha.

    Uma ONG assumiu a guarda da cadela. O dono foi levado à delegacia e liberado após pagar fiança. A pena máxima para maus tratos de animais é de um ano de prisão, mas costuma ser substituída por trabalhos comunitários.

    Rocha diz que também são comuns os casos que envolvem “a cultura de aprisionar passarinhos”. Numa das maiores apreensões já feitas pela unidade, 220 pássaros criados ilegalmente foram resgatados de uma só vez. As aves pertenciam a um delegado aposentado.

    Experiência nas ruas

    Além de combater delitos ambientais, o batalhão participa às vezes de operações contra crimes comuns – o que não é um problema, já que todos os seus integrantes desempenharam as funções antes de ingressar na unidade.

    O soldado Adriano Figueiredo – que participou da operação com o pibtull sacrificado – já atuou no Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e em patrulhas convencionais. Ele afirma que a experiência o preparou para o posto atual, mas também lhe mostrou os limites da atuação da polícia.

    “Às vezes, você é obrigado a prender um jovem de 16 anos, e, ao entrevistá-lo, vê que a conduta criminosa dele é um problema social: ele vem de uma vida muito pobre, o pai foi preso por tráfico, a mãe é viciada em crack”, diz o soldado.

    “O Estado não deu condições mínimas para esse jovem, falhou na educação. E quando o Estado se torna presente para ele é na forma repressiva, com sua estrutura armada.”

    Segundo o capitão Rocha, a colaboração entre o batalhão e outras unidades da PM mudou a imagem do grupo. “No começo, o PM achava que vinha para cá descansar. Hoje, o efetivo nos vê como um batalhão extremamente especializado e produtivo.”

    Ele afirma, porém, que nem todos os agentes de segurança tratam os crimes ambientais com o peso devido. Rocha conta que, certa vez, levou à delegacia um homem pego torturando animais.

    “O delegado falou: ‘Maus tratos? Eu tô aqui com 17 homicidas’. Aí a gente tem de explicar que, se fizermos vista grossa para os maus tratos, da próxima vez pode ser um homicídio”, diz Rocha, que aponta outro motivo para combater crimes ambientais com rigor.

    “A natureza responde de forma latente – vemos isso hoje claramente com as mudanças climáticas. Quem derruba uma árvore protegida não está só agindo contra aquela árvore, mas contra todas as pessoas e animais que se beneficiem da existência dela.”

    Fonte BBC Brasil

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